
Nela havia de tudo, mas tinha uma pequena parte que ela não sabia o que era, uma parte que ela não sabia como reagia, nem como agradar, seria escura se não fosse iluminada, seria feia se não fosse bonita, nem tão bonita, era misteriosa.
Tinha um pouco de mentira nessa parte, um pouco de falsidade, que nem se assemelhava tanto à falsidade, porque o que ela não sentia, ela ao menos queria sentir, e fazia um esforço. Esse espaço desconhecido dentro dela lhe causava um sofrimento enorme, uma agitação desnecessária, ela não sabia como se livrar.
Essa pequena parte com o tempo foi aumentando e estava quase lhe tomando um pedaço maior de seu corpo, e já era percebido em suas olheiras, calos, pele, cabelos. E os tempos que vinham não a ajudavam em nada, e a parte se aumentando, se expandindo, tomando para si um corpo que não lhe pertencia, mas que estava começando a pertencer.
A primeira coisa que tomou por inteiro foram os olhos, eles só viam o que a parte via, e do modo que ela via, não tinha mais beleza. Logo depois a boca, permanecia a maior parte do tempo imóvel, sem dentes.
Os pés já davam sinais de sucumbir quando, num momento de distração da parte, eles correram juntos: cérebro, pés, até os olhos mostravam lances de lucidez, eles correram para o alto de um penhasco. Quando os olhos viram a terra se acabando, avisaram aos pés, mas o cérebro não parou, e num acordo mudo e mútuo eles foram em frente.
Libertaram a menina, libertaram a si próprios, a pequena parte obscura precisava deles para crescer mas eles correram, agora ela não existe, ninguém existe mais.
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