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Hoje eu senti

 

Não sei, acho que com o tempo, eu fui perdendo a vontade de escrever só pra mim, como se minha própria escrita não me saciasse mais, parece que já não sei mais palavras suficientes, que não carrego mais emoções nas minhas frases, que cada ruga nova que surge no meu rosto, contasse mais histórias que qualquer história que eu pudesse escrever.

Poderia ser totalmente dramática e dizer que a vida tirou tudo de mim, mas também poderia ser pragmática e dizer que a quantidade de tempo passada no celular limitou algumas conexões do meu cérebro, e não consigo mais colocar tanta emoção nas coisas.

Mas também teve a rapidez com que passou a vida, as obrigações que tomam todo o tempo livre, e o corpo e a mente tão cansados que quando o ócio chega, ele precisa ser rapidamente anestesiado.

Também teve a questão da falta do que dizer, ou melhor, da falta de sentir, voltando ao início, foram me faltando palavras, foi me faltando dar nome às coisas que se sentia, foi crescendo uma falta. Me conformei que eu não iria para o hall das estrelas e seria pra sempre só naninhastar no e-mail da adolescência e que daqui 30 anos ninguém iria me ler e pensar no que foi a minha vida, e que eu era de fato genial.

Acho que também perdi aquele sonho de que meus filhos encontrariam meus diários quando eu morresse bem velhinha e sentiriam que me teriam para sempre naquelas páginas, uma mulher além da mãe que eles jamais iriam conhecer, mas que existiu.

Aconteceu de também a minha escrita sempre ter tido uma tendência à nostalgia e às coisas que doíam e de eu ter ao longo do tempo começado a mascarar essa melancolia por achar inadequado porque o normal, pasmem, era ser feliz.

O que aconteceu é o que sempre acontece, a vida. Hoje ela me trouxe aqui, eu tive que escrever imediatamente porque faziam anos que ela não me trazia pra esse lugar de sentir, hoje eu senti.

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