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Lamento de uma lembrança

Você se lembra? Quando era pequena e também não conseguia dormir, eu te pegava e colocava no carro, e saía com você para rodar pela cidade, pode imaginar como sua mãe ficava louca não é? Hoje penso e acho que não devia fazer aquilo, você era pequena e precisava dormir ( Será que por isso que você não cresceu muito?) nós íamos pelas ruas iluminadas, víamos jovens bebendo em bares, e então entrávamos naquele café e eu pedia um expresso, o homem do balcão lhe parecia engraçado, ele sempre conseguia te arrancar um sorriso, o nome dele podia ser Toni, ou Beto, nunca me perguntei. Espero que hoje em dia, alguém ainda consiga lhe arrancar aquele sorriso admirado e sincero.
A noite passando, sua mãe perambulando de preocupação e nós dois, só nós dois, num lugar onde podíamos ser o que realmente nós éramos, naquela época fazia pouco tempo que nos conhecíamos, mas parece que eu sabia quem você era, e quem você se tornaria, mas será que se tornou?
Não sei se senta em bares que nem aqueles jovens, não sei se sorri para garçons em cafés charmosos, não sei se tem muitos amigos, se é popular, se gosta de ler, ou se tem algum dom especial, mas eu tenho certeza que gosta da noite e quem tem um olhar aventureiro, um brilho perigoso. Sei também que gosta de pensar em movimento, com a cabeça encostada no vidro de um ônibus, ou de um carro.
Daquela época, se lembra das luzes passando rápido, dos montes de blusas por causa do frio, e de um homem engraçado, as mesmas lembranças que eu? Faria sentido, porque é na minha lembranças que você está, e eu estou na lembrança de alguém, talvez menor.
Hoje eu não te vejo mais, mas sempre te reservo um bom sentimento, não teria como ser diferente, você foi a minha melhor e mais bonita lembrança, o meu mais vivo fragmento de um passado que eu nunca tive, a minha mais pura vontade e mais singela mentira.
Hoje você nem existe mais, e nem eu, só a consciência errônea de quem escreve tentando nos fazer existir, enquanto esquece de fazer o mesmo.

Comentários

Ana Carolina disse…
Tem horas em que eu penso "o que seria de mim sem aquilo que já passou", aí chego à conclusão de que o mim não existiria. Nesse sentido, menina Ana, eu te asseguro: não é a lembrança, é você!

ps.: tá confuso kkkk, eu realmente queria tomar um chá com todos os corações calorosos que nem me conhecem, mas vão até meu espaço e me deixam palavras lindas, lindas, lindas... muito obrigada, e seja feliz.

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