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Manifesto do furto de alma

Pois é, e no auge dos meus 25 anos me deparo com uma situação que está além da minha maturidade, aliás acho ninguém nunca vai ter maturidade o suficiente para lidar com esse tipo de coisa que acontece...

furto
substantivo masculino
  1. 1.
    ato ou efeito de furtar; ladroeira, roubo.
  2. 2.
    p.met. aquilo que se furtou.

No dicionário, furto é caracterizado pelo ato de se apropriar de um objeto alheio sem que haja o uso de violência. Acrescento à essa designação que a apropriação indevida pode ser também referente a coisas mais subjetivas como sua paz, sua autoestima, seu amparo, sua segurança.
Ontem me roubaram R$ 400,00. Junto com esse dinheiro foi a minha segurança, a minha fé na humanidade, minha autoconsciência, roubaram a minha alegria pueril e o que restava da minha inocência. 
O homem que me roubou levou tudo isso dentro da sua mala de devassidão e teve a gentileza de não me acordar quando estava indo embora, pra que eu não visse com os olhos cansados do mundo, o quanto eu diminuía e ficava imóvel assistindo àquele espetáculo mórbido de desamparo.
Esse homem tem nome, sobrenome, endereço e progenitores, esse homem dorme do seu lado e passa na sua frente, esse homem pode ser você. Ainda estou tomando as medidas necessárias e um tanto quando ineficazes acerca dessa situação, ainda estou tentando me recompor.
O intuito de tudo isso é ficar bem, o intuito desse texto é melhorar por mim, e dizer que eu estava deitada na minha cama, no meu quarto, na minha casa pensando em toda essa merda que invariavelmente acaba nos acontecendo, e me dei conta que o pertencimento que eu tenho de mim mesma é muito maior e mais caro do que todo o dinheiro que ele poderia me levar. 
Olhei para as minhas coisas na estante, os livros que eu amo, os deuses em que eu acredito, as músicas que eu gosto de tocar, minha gatinha que me olha tão apaixonada e aos poucos fui crescendo,  ficando um pouco maior do que eu estava depois dessa merda, e quando vi estava me amando e me consolando, estava sendo amiga de mim mesma.
Fui entrando no meu universo aquele compartilhado com pouquíssimas pessoas e cheguei à, quem sabe mais clichês das conclusões, que ele pode me levar o que tenho, mas nunca o que eu sou. Ele levou meu dinheiro e me devolveu uma pessoa mais atenta, mais confiante na minha intuição, que sabe dizer quais os seus limites e que mudou compulsória e irreversivelmente devido a essa situação, mas que conseguiu se olhar com olhos mais generosos e menos rígidos sobre si mesma.
Então, Sr Ladrão, se um dia rouba um bem, no outro fica sem, se num dia a paz me toma, no outro a escuridão em seu peito se forma, vou viver solar e continuo, mesmo com todos os percalços, a acreditar.

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